Vamos falar de salada?

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Vamos pensar juntos. Há dez anos, quando você ia até o shopping, quais as opções encontradas na praça de alimentação? Aqueles fast-foods de sempre e uma franquias de grills e massas. Mas pouco, ou quase nada, se via de comida saudável. Afinal de contas, naquela época não se falava tanto em comer bem como se fala hoje. Alimento orgânico, cardápio equilibrado e sucos funcionais eram termos com uso mais restritos, talvez em um restaurante especializado. Mas o primeiro impulso tomou forma no final da década passada, quando a americana Salad Creations chegou ao Brasil e começou a mudar um pouco essa maneira de comer rápido em shopping, mas comer bem.

Em oito anos de operação, a Salad Creations passou por muita coisa, como abrir 30 unidades pelo país durante o período e se adaptar o pensamento da matriz com as necessidades da cultura gastronômica brasileira. Resultado disso? A Salad Creations está saindo do Brasil. A marca está indo embora, mas a mentalidade de trabalhar com alimentação saudável se mantém com o grupo brasileiro por trás dessa empreitada, que se desprendeu da franquia para uma nova aposta, a Boali.

Da contração de Boa Alimentação, o novo posicionamento da rede, como diz o próprio grupo oficialmente, é uma evolução da Salad Creations, com uma pegada mais sustentável e ligada à pequenos produtores regionais. Quem afirma é a Ana Maura Werner, gerente de marketing, que me tirou algumas dúvidas sobre essa mudança. Uma das mais interessantes era sobre o motivo da cisão entre o grupo e a marca americana.

Oficialmente, os principais motivos foram a difícil pronuncia do nome pelo público brasileiro, somados à abertura de empreendimentos semelhantes que também geravam confusão no público brasileiro, e o direcionamento da marca enquanto monoproduto, ou seja, que oferecia apenas salada em seu cardápio. Os motivos são claramente aceitáveis, ainda que em entrevista para o Blog do Lorençato apareceu um quarto fator, a falta de suporte da própria Salad Creations.

E mesmo que a intenção entre as partes seja de manter uma imagem de amizade e bola pra frente, dá pra ligar alguns pontos e fazer uma análise de como empresas de fora podem acabar se atrapalhando quando tentam entrar no mercado brasileiro. A história recente mostra isso com muita clareza, com KFC, Arby’s, Domino’s, Subway e Pizza Hut que não nos deixam mentir. Enquanto uns patinaram até conseguir uma estabilidade, outros tiveram que tentar novamente pela mão de outros, e uns até simplesmente deixaram o Brasil de vez (saudades Arby’s).

Mais uma marca de fora que veio tentar a sorte em terras tupiniquins, a Salad Creation também acaba entrando por esse panteão. Lembrando que em oito anos de operação no Brasil, a Salad Creations teve 30 unidades abertas ao total. E esse número não foi maior por dois motivos, segundo a Ana: 1) uma estratégia de crescimento consciente, abrindo um restaurante de salada aonde as pessoas tem o hábito de comer salada, e; 2) falta de infraestrutura que pudesse fornecer matéria-prima diária para o funcionamento das lojas. Afinal, estamos falando de salada, não dá pra congelar e usar depois de três meses.

Com essa mudança de chave, e adoção do novo posicionamento, a Boali – que neste momento tem 16 unidades abertas no país – quer chegar em 80 lojas funcionando até o final de 2017. Pra quem tinha até então menos da metade desse número, em um oitavo do tempo, essa parece ser uma jogada bem ousada.

E acaba fazendo sentido.

Pra alcançar essa meta, a nova – velha – empresa se propõe a estimular uma rede de sustentabilidade e saudabilidade entre os fornecedores locais, permitindo a entrega de alimentos naturais em larga escala; direcionar a expansão para fora dos shoppings – para os próximos dois anos a meta é ter 50% dessas 80 lojas fora de uma praça de alimentação; e saber crescer. Para esse último ponto, segundo a Ana, a equipe se uniou à Marinho Ponci, responsável pelo plano de expansão da Chili Beans (que só não tem mais que o Subway por esse país afora), pregando não apenas aumentar o número de pontos, mas pensando na saúde e manutenção dos pontos para os franqueados. Ou seja, resumidamente, um plano que tem bastante sentido.

Ainda que eles não confirmem oficialmente, não é possível que algum tipo de plano de expansão do Salad Creations não estivesse na mesa. Crescer é uma estratégia boa para todos os lados, o que nos leva a pensar que as ‘questões filosóficas’ e de ordem administrativa da matriz não batiam com os representantes brasileiros – que agora querem duplicar sua rede como se não houvesse amanhã.

Quem perde com isso? Os gringos. Perderam a oportunidade de expandir internacionalmente sua marca, especialmente em um momento onde as pessoas procuram mais e mais comer bem (não é, McDonald’s?), e dominar com facilidade um segmento que encontra pouca concorrência.

Alguém vai confirmar isso em algum momento? Provavelmente não, mas como pensar não faz mal, dá pra somar um mais uma e perceber que mais uma vez uma rede de fora achou que era só chegar, mas descobriu que o Brasil é o Brasil. Uma pena.

Nota do editor: Tentamos conversar com a matriz do Salad Creations nos Estados Unidos, via email, com a intenção de entender o motivo da marca estar deixando o país. Entretanto, até o fechamento desta coluna, não tivemos nenhum tipo de retorno.

Fast&Food é escrita por Raphael Diegues, editor do Comida pra Casal, que aborda novidades e dúvidas dos consumidores a respeito das redes de comida rápida espalhadas pela cidade.

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